A terceira etapa da peregrinação missionária, dos fundadores da Fazenda da Esperança Nelson Giovanelli e Frei Hans Stapel, pelo continente africano foi marcada pela passagem pelo Quênia e por Angola, duas realidades muito diferentes, mas unidas por uma mesma experiência: ver como o Carisma da Esperança continua crescendo, sendo assumido pelos próprios africanos e encontrando, mesmo em meio às dificuldades, caminhos inesperados da Providência. Nelson Giovanelli partilha a experiência, e relata a divina aventura no continente africano. 

Por Nelson GIovanelli

Quênia e Angola: uma experiência de providência, comunhão e esperança

No Quênia, tivemos a alegria de permanecer junto à comunidade da Fazenda da Esperança, na região de Embu, justamente por ocasião da celebração de seus nove anos de presença no país.

A festa reuniu acolhidos, Es* acolhidos, familiares, voluntários e amigos da obra. Um dos momentos mais significativos foi a entrega dos certificados àqueles que completaram o período de um ano na Fazenda. Mais do que certificados, representava uma história reconstruída, uma família que recuperava a esperança e o testemunho concreto de que é possível começar uma vida nova.

Nossa permanência coincidiu também com um momento importante de estruturação da casa. Graças a alguns recursos econômicos que tínhamos à disposição, provenientes de benfeitores que haviam confiado ao Frei a possibilidade de ajudar nas necessidades que fossem surgindo ao longo da viagem, pudemos colocar em comum com a Fazenda um valor destinado a investimentos e doações concretas. Assim, conseguimos colaborar diretamente com a aquisição de móveis, sofás e beliches, tornando os ambientes mais dignos, funcionais e acolhedores. Havia ainda, porém, uma necessidade concreta: encontrar colchões adequados para os novos leitos. E justamente aí vivemos mais uma pequena experiência da Providência de Deus.

Procurávamos colchões de boa qualidade, mas os preços inicialmente encontrados eram muito altos para a realidade da Fazenda. Depois de muita procura, conseguimos encontrar uma solução bastante mais econômica, permitindo equipar os novos beliches sem comprometer os poucos recursos disponíveis. Aquilo que parecia apenas uma questão prática acabou fazendo parte de uma experiência muito maior.

Quando uma greve mudou nossos planos

Ao deixarmos o Quênia, fomos surpreendidos pela greve nos aeroportos quenianos, que provocou o cancelamento de nosso voo da TAAG. Depois de horas de espera, contatos e tentativas de reacomodação, tivemos que permanecer mais alguns dias em Nairobi.

Inicialmente parecia apenas um contratempo. Aos poucos, porém, começamos a perceber aquele imprevisto de outra maneira. Fomos acolhidos no Centro Mariápolis de Nairobi, onde encontramos um ambiente de grande tranquilidade. Pudemos celebrar a Eucaristia, prolongar nossos momentos de adoração e viver dias que não estavam previstos em nosso programa. Sobretudo para Frei Hans, aquele tempo revelou-se providencial. Depois de semanas de viagens intensas pelo continente e diante das dificuldades que vinha enfrentando nas pernas, os dias inesperados de repouso permitiram que permanecesse mais tempo deitado e com as pernas elevadas, contribuindo significativamente para sua recuperação.

Assim, aquilo que parecia simplesmente uma greve que atrapalhava nossos planos transformou-se em um tempo de descanso, oração e Providência. Até a busca pelos colchões pôde ser resolvida durante esses dias de maneira muito mais econômica.

Mais uma vez experimentamos algo que acompanhou toda esta peregrinação: Deus também se manifesta nos imprevistos e, muitas vezes, muda nossos programas para cuidar de nós e da missão.

Angola – uma Fazenda tomada pela Família da Esperança

Depois do Quênia, seguimos para Angola, onde a peregrinação ganhou uma dimensão impressionante de participação popular. Na Fazenda da Esperança de Huambo, encontramos uma realidade que cresceu enormemente ao longo destes quinze anos.

Os dias que antecederam a grande festa foram marcados por encontros e retiros, especialmente com os Embaixadores da Esperança (quase 120) – Es* acolhidos que hoje testemunham, com suas próprias vidas, o caminho percorrido na Fazenda –, além de numerosos familiares e membros dos Grupos Esperança Viva (GEV).

Caravanas começaram a chegar de diferentes regiões do país. Em determinado momento, a Fazenda acolhia centenas de pessoas, chegando a aproximadamente 600 participantes. Um gesto especialmente bonito veio dos próprios acolhidos: muitos deixaram temporariamente suas casas e passaram a dormir em tendas espalhadas pela propriedade para que os familiares e participantes do retiro pudessem ocupar os alojamentos. Era uma verdadeira imagem da Família da Esperança.

Os momentos de formação, testemunhos, convivência, celebrações e adoração eucarística mostraram a força que o carisma adquiriu em Angola, não somente entre aqueles que atualmente fazem o caminho de recuperação, mas também entre Es* acolhidos, famílias, voluntários e membros dos Grupos Esperança Viva.

Quinze anos da Fazenda da Esperança em Angola

O ponto culminante foi a celebração dos 15 anos da Fazenda da Esperança em Angola. Antes da grande festa, tivemos ainda a oportunidade de visitar a antiga missão de Vavaiela, lugar ligado ao início da Fazenda há quinze anos. A visita permitiu recordar os primeiros passos da obra e, ao mesmo tempo, olhar para o futuro. Entre as perspectivas conversadas estava o desenvolvimento da agricultura da Fazenda, inclusive com a possibilidade de utilização de tratores para ampliar a produção.

A celebração jubilar reuniu acolhidos, Es* acolhidos, familiares, voluntários, autoridades civis e representantes da Igreja. Contamos com a presença de bispos e sacerdotes, entre eles Dom Zeferino e Dom José Queiroz, além de autoridades das províncias do Huambo e do Bié. Durante a celebração foram entregues quase vinte certificados, envolvendo pessoas que fizeram seu caminho nas Fazendas masculina e feminina e também testemunhos ligados aos Grupos Esperança Viva.

Foi emocionante constatar que, depois de quinze anos, a Fazenda de Huambo se encontra cheia, chegando inclusive a ter lista de espera, enquanto surgem pedidos para que novas unidades sejam abertas em outras regiões de Angola.

Uma pedra para o futuro

Outro sinal concreto de esperança foi o lançamento da pedra fundamental de uma nova creche, projeto há muito desejado e que agora começa a tomar forma. Também nesse momento experimentamos gestos concretos de comunhão e solidariedade. Da província do Bié, por exemplo, chegaram 20 latões de tinta como contribuição para as obras.

Ao mesmo tempo, nossa visita permitiu conhecer melhor toda a propriedade da Fazenda, uma extensa área com grande potencial agrícola. Visitamos os animais, a nova pocilga, a estrutura de triagem e a casa de formação. Surgiram muitos sonhos para o futuro: ampliar as plantações, cultivar árvores frutíferas, desenvolver áreas de reflorestamento e criar condições para que a própria terra contribua cada vez mais para a sustentabilidade da missão.

A esperança está criando raízes na África

Ao concluirmos esta terceira etapa, ficou ainda mais forte uma percepção que vem nos acompanhando durante toda esta peregrinação: a Fazenda da Esperança na África já não é simplesmente uma obra que veio de fora. Ela está criando raízes africanas.

No Quênia, vimos uma comunidade celebrar nove anos e pessoas que completaram seu caminho receberem seus diplomas diante de suas famílias. Em Angola, vimos milhares de sementes lançadas durante quinze anos produzirem frutos em ex-acolhidos, famílias, jovens dos Grupos Esperança Viva, voluntários e lideranças locais.

E, entre uma experiência e outra, uma greve inesperada nos ensinou novamente que a missão não depende somente de nossos programas. Algumas vezes é justamente quando nossos planos são interrompidos que conseguimos perceber com maior clareza o cuidado de Deus.

Seguimos nossa peregrinação profundamente agradecidos por tudo aquilo que vimos e vivemos. Da recuperação de uma pessoa ao nascimento de uma nova creche; de um colchão conseguido por um preço muito mais acessível a centenas de pessoas reunidas para celebrar quinze anos de esperança: tudo pode se transformar em instrumento da Providência quando é colocado a serviço do próximo.

E a África continua nos mostrando que o Carisma da Esperança encontrou terra fértil para crescer e dar muitos frutos.